segunda-feira, março 14, 2011

O fantasma do ônibus

Eu não sei se fui sempre antissocial em viagens de ônibus, talvez não. Mas desde pelo menos uns 13 anos para cá a tecnologia vem me ajudando a tornar o ambiente de dentro do coletivo mais agradável, mais suportável.

Quando entrei na faculdade as viagens de uma hora e meia entre São Carlos e Ribeirão Preto eram parte da minha vida estudantil, nunca tive dificuldade de dormir durante o percurso e não me recordo das conversas alheias e crianças barulhentas me afetarem tanto, eu era mais tolerante.

Mesmo assim, eu carregava comigo um walkman ruim da sony, comprado na lojinha de muambas ao lado do bandeijão onde eu almoçava (eu também era mais tolerante no que diz respeito a comida ruim) eu tinha fitas com musicas que gravei de CDs alugados ou emprestados. A música naquela época era mais uma distração apenas.

Depois da fita veio o discman, e depois do discman o discman de mp3. Como consumiam pilha! Era um par de alcalinas por viagem…

Com meu primeiro iPod, um tijolinho branco com HD e rodinha de plástico, destes que vc consegue machucar uma pessoa se usar como arma (1a geraçao) a coisa mudou, eu agora conseguia horas de bateria e tinha uma coleção de músicas sem fim. Fiz viagens longas e (acho que) aprimorei meu gosto, a música deixou de ser uma distração apenas, passou a ser uma fuga, um remédio, uma necessidade. Eu agora usava o volume alto do fone branco para encobrir os papos e besteiras que rolavam no ambiente, me tornei mais elitista. Muito tempo depois, já nos EUA, aposentei o brancão velho e cansado por um touch (tb 1a geração) que é até hoje meu aparelho de música portátil.

Pois bem, longa e inútil introdução para o ponto onde eu queria chegar, a observação que dá título a este post.

O meu comportamento hoje em dia dentro de um ônibus ou de um avião, a minha postura e modelo de encarar a viagem é totalmente isolacionista. Eu tenho um abafador de ruídos destes de operário de fábrica e uma tablet com livros e artigos que salvei para ler offline, tenho um laptop com 3g para se eu eventualmente precisar trabalhar e claro, um walkman para colocar sob o abafador de ruidos caso uma camada de proteção não seja suficiente.

Eu sou um menino da bolha sem bolha, sou um autista por opção, eu sei que dificilmente as pessoas ao meu redor naquele ambiente serão mais interessantes do que o que quer que eu tenha selecionado para absorver de informação durante a viagem. Para todos os efeitos, eu não estou dentro do mesmo ônibus, sou um fantasma. O fantasma do ônibus, a poltrona vaga que ninguém senta, se direcionar ao corpo que ocupa aquele lugar para uma conversa não é apenas inútil, é intimidador, vc estará mechendo com a assombração, interrompendo o transe da múmia, maldição cairás sobre ti, se o indivíduo fez questão de botar um grande par de conchas laranjas no ouvido é pq ele quer privacidade, ele decidiu dar opt-out na realidade local por algum tempo, é melhor ignorar.

É claro que eu não sou o único, tocadores de mp3 são ubiquos, o sudoku, a paciência e o facebook estão nos celulares para as pessoas jogarem durante a viagem, um possível cenário é o padrão “fantasma de onibus” se popularizar ao ponto de tornar o ônibus todo fantasma. Matrix.

Eu não acharia ruim, pelo contrário :)

Ha 15 anos os tempos eram outros, as pessoas eram quase que obrigadas a serem cordiais dentro de um ônibus ou avião, conversar com o passageiro da poltrona ao lado era o que você podia fazer para o tempo passar. Fingir que dorme ou abrir um livro eram alternativas, sim, mas todos estavam abertos para interação até que se provasse o contrário. A recomendação: “não fale com estranhos” podia ser quebrada pois era senso comum que todos ali estavam igualmente entediados. Evoluímos.

Viajar numa estrada brasileira com brasileiros ao seu redor hoje nao significa que vc precise estar necessariamente no Brasil, você não precisa se render ao funk carioca e ao brasil perifa-moleque de Regina Cazé, você não precisa saber quem matou Odethe Roitman ou o último eliminado do BBB, críquete pode ser seu esporte favorito, você tem escolha!!!

5 comentários:

Marcelo Braga disse...

Já fomos muito torturados pelos ônibus, a viagem de Bauru pra São Carlos era de 3h30, dormir naqueles assentos ruins é até uma arte, que desenvolvemos e aprimoramos ao máximo. Paguei muitos pecados na empresa Cruz, assistindo sem opção alguma continuação do "Benji". Pesadelos tão ruins quanto o "funk carioca e ao brasil perifa-moleque de Regina Cazé". Abs!

Fabricio disse...

Onibus da Empresa Cruz com DVD era algo comum mesmo, o filme começava na metade e acabava antes do fim da viagem, o que deixava o menu do dvd e a musica dele em loop por horas, era de deixar qqer um louco.

Apesar do onibus todo estar incomodado, aparentemente era sempre eu o unico a levantar e ir bater na porta do motorista para pedir para ele desligar o dvd.

Danielle disse...

Recebi o link deste post por email de uma amiga assustada com o que lera aqui...
Achei válido o autor se afirmar (e se aceitar) como uma pessoa elitista.
Mas permita-me discordar veementemente de sua opinião através da minha própria. Sei que visão cada um tem a sua...
Mas achei engraçado constatar como eu vou para o outro extremo numa mesma situação...
Para mim, o MELHOR de uma viagem de ônibus é JUSTAMENTE analisar o ambiente, conhecer as pessoas e observar como se comportam. Sei q é um mundo diferente do meu, por isso mesmo, busco conhecê-lo e respeitá-lo.
Uma viagem de ônibus (seja local, intermunicipal, interestadual ou internacional) é tão rica de acontecimentos, de personagens, de situaçoes incomuns...
Se fechar em seu mundinho é uma opção.
Explorar esse mundão é outra.
Só acho temerário generalizarmos e homogeneizarmos tudo e todos... Jogar o "zé povinho" no caldeirão da mesmice e da mediocridade é uma atitude xenófoba.
Subestimar as pessoas sem conhecê-las é um desperdício.
Tudo que sinto quando vejo/leio isso, é pena.

Fabricio disse...

Oi Danielle,

Obrigado pelo comentário. Não me entenda mal, eu gosto de analisar o ambiente e de observar como se comportam as pessoas em uma viagem de ônibus. Faço isso com o canto do olho e as vezes até coloco o walkman no mudo para bisbilhotar alguma conversa interessante ou curiosa.

O que eu não gosto é de barulho, de desrespeito com quem está tentando dormir, ler ou relaxar. Não gosto de ser incomodado, não gosto de falta de modos. A viagem de ônibus é muitas vezes a oportunidade que tenho para botar minha leitura em dia e para isso eu preciso de um ambiente de biblioteca :)

Cinema, biblioteca e ônibus intermunicipal na minha humilde opinião são ambientes semelhantes e o que eu espero dos outros é um pouco de consideração com o próximo, só isso, bons modos nunca fez mal a ninguém.

Não estou generalizando, não quero jogar ninguém em caldeirão algum. Se meu post passa esta impressão, não me expressei bem.

Eu sei que existe gente com passados riquissimos e belos dentro de um ônibus, existem os medíocres também. O que estou dizendo é que graças a tecnologia hoje é mais facil explorar o mundão estando no mundinho, estou dizendo que do conforto do meu isolamento, filtrar a mediocridade é mais fácil. Só isso.

No meu mundinho eu tenho acesso ao melhor do legado humano, às grandes obras de gênios imortais, o mundinho É o mundão. No "mundão" do ônibus, limitado àquele espaço fechado eu tenho acesso restrito, eu sou menos livre.

Quando as escolhas são choro de criança, o resultado do jogo do Corinthians e as fofocas da última micareta, eu estou preso, o mundo durante aquela viagem é menor e não maior.

Olaides Duarte Ferreira disse...

Isso me lembra uma viagem que fiz da Bahia até São Paulo acreditem fui por puro prazer e pelo meu instinto queria saber o que era realmente sofrer quer dizer viajar, mas no final vi que não só de Funk e Rede Globo vive o Brasil e sim muitas pessoas e lugares interessantes existem, claro que o lugar comum sempre aparece mas basta não dar muita atenção que ele desaparece.